• José Antonio Martino

Resenha sobre o livro "Contos Maus" por Fátima Brito



Resenha publicada pela escritora Fátima Brito em Mallarmargens, Revista de Poesia e Arte Contemporânea, sobre o meu livro "Contos Maus".

"CONTOS MAUS: Se nascemos bons – como supõe J. J. Rousseau -; se nascemos maus – como sugere Thomas Hobbes -; ou se nascemos como uma tábula rasa – como crê John Locke -, talvez nunca venhamos a saber com certeza na vida q ora vivemos, marcada por tempo escasso e alguns torvelinhos q nos sugam a energia. Mas q há bondade e q há maldade quase em seu estado puro, ñ nos resta dúvida. A muitos – os delicados, ou q se creem delicados, ou querem se mostrar delicados, evitando enfrentar fatos q nos jogam para além da zona de conforto – ñ interessa essa verdade. Mas existe, incontestavelmente, a maldade, a crueldade e ela com frequência não é fruto de loucura e não é, portanto, explicada por ela. E, além dessa maldade em estado (quase) puro, existe também (o q é, felizmente, o + comum) a maldade medíocre, cotidiana, a maldade dos pequenos atos e omissões.

É em especial dessa maldade q trata o delicioso CONTOS MAUS de José Antonio Martino. Neste seu terceiro livro de contos, Martino ousa incomodar os q preferem fechar os olhos; optando pelo conforto de suas bolhas, a olhar a hipocrisia, a exploração, a indiferença, a covardia, a mediocridade q imperam no dia a dia. Nesse seu movimento corajoso, Martino traça, em alguns dos 16 contos com q nos brinda, um retrato de época, aproximando-se de Anton Tchékhov, um dos mais importantes autores da Literatura Universal. Tal como o autor russo, vale-se de uma linguagem absolutamente clara e fluente para nos contar a história de Maria Odorina, no conto “Sopa”, ou de Dona Penha, em “Angústia”. Em um tom satírico, com tiradas q nos fazem rir, ele nos apresenta a vida de exploração das duas mulheres. Diferente da personagem de “Idiota”, conto ontológico de Tchekhov, as de Martino mantêm firmemente a decisão de desmascarar seus patrões. Assim, embora ñ fuja da complexidade da temática q se dispôs trabalhar, o autor permite ao leitor o prazer de aliviar-se ao ver as personagens com as quais se identifica sendo liberadas do jugo da tirania e da hipocrisia. Em todos os contos, o leitor encontra, em meio à maldade, em geral amainada pela mediocridade do cotidiano, a possibilidade de encantar-se com imagens de grande delicadeza e beleza (“Nos trilhos do tempo”, com o reencontro, na velhice, de Lino e de Ana Rosa; “As Pereiras da China”; “Marina”...). Especialista em Machado de Assis, Martino – também premiado romancista, poeta e ensaísta - trabalha com construções e com uma ironia típicas desse outro mestre da Literatura Universal. Enfim, CONTOS MAUS (Excalibur Editora, 2019), com o perdão do trocadilho, faz um enorme bem à Literatura e ao leitor q se dispuser a avançar em um universo literário marcadamente realista. E, a ambos, faz um imensurável bem."

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