• José Antonio Martino

Conto de Natal!!!



O dia em que Charles Dickens apanhou de papai-noel


Por José Antonio Martino



Desde fins de novembro, o Morning Chronicle, um dos maiores jornais londrinos que o século XIX conheceu, vinha anunciando um novo conto de Charles Dickens, já então considerado o primeiro escritor inglês de seu tempo. A ideia era publicá-lo na manhã de Natal, num caderno extra todo ilustrado a bico-de-pena, e que seria um presente aos assíduos e privilegiados assinantes daquela folha. Como o conto ainda não estava terminado, o escritor remetera ao jornal apenas o título de seu trabalho, para que eles o pudessem ir divulgando em suas páginas a fim de exacerbar a curiosidade dos ingleses e, principalmente, das inglesas, leitoras fiéis e devotas inflexíveis do altar de Dickens.

Embora os editores do periódico cobrassem dele maior presteza, o sempre afável e pontual Charles parecia estar pouco preocupado com o prazo dado para a entrega de seu trabalho. A cada nova manhã, um emissário do Morning Chronicle ia bater à porta do escritor atrás do conto prometido, mas voltava, invariavelmente, nervoso e de mãos vazias. Ora Dickens alegava andar muito atarefado e sem tempo para dar os últimos retoques à obra, ora dizia que precisava corrigir algumas frases menos felizes para que o ritmo fluísse com maior naturalidade. A verdade, porém, era bem outra.

A verdade pelada e mal cozida era que ele não estava satisfeito com aquele trabalho feito às pressas, apenas para atender aos caprichos vaidosos de um jornal ganancioso. Se não fosse pelas boas libras que o conto haveria de lhe render, pois precisava do dinheiro não só para saldar dívidas antigas, como também para cobrir algumas despesas do momento, Charles Dickens correria o emissário de sua casa da próxima vez que ele lhe viesse bater à porta. Não acusem o pobre escritor de excesso de preciosismo. Quem tem nas veias sangue de artista há de compreender melhor o drama que lhe atormentava o espírito. Antes de mais nada, é preciso deixar claro que seu conto não era ruim. Havia movimento, havia colorido e, sobretudo, havia uma cativante atmosfera natalina, rica de paz, de bondade, de gratidão, de todos aqueles sentimentos altruístas que irmanam os povos de boa vontade nesta noite mágica. Mesmo assim, o enredo lhe parecia de uma banalidade excessiva e o próprio título da história, “Canto do Natal”, parecia lhe dar bem a ideia de sua mediocridade.

A trama era simples: um menino pobre, que não teria por ceia mais do que uma rala sopa de ervilhas, vai de casa em casa, de porta em porta, cantar velhas canções natalinas e desejar boas-festas às pessoas. A sua esperança era receber uma moedinha que fosse, pois queria arranjar dinheiro para comprar uma boneca à sua irmãzinha, que estava doente. Muitos lares cristãos não tiveram sequer a magnanimidade de abrirem suas portas ao pobre garoto. Com seus sapatos furados, cheios de jornal velho no interior para servir de mesquinho amparo contra a neve gelada, ele não podia deixar de refletir que o Natal não fora feito para os pobres. Através das vidraças, com os olhos aguados de resignação, o pequeno assistia aos corados meninos ricos rasgando pacotes enfeitados com laços brilhantes, ao pé de uma lareira quentinha, numa sala aconchegante, perfumada pelo cheiro gostoso de peru assado e batatas cremosas. Cansado de tanto caminhar, faminto e com os dedos dos pés congelados, a pobre criança finalmente resolve voltar para casa pouco depois de cair a noite, mas sem ter conseguido arranjar o dinheiro necessário para comprar o tão sonhado presente de sua irmã. Quando chega ao seu lar, porém, que surpresa! Sua irmãzinha corre para abraçá-lo, esquecida de sua doença, e com uma linda boneca nos braços. A menina nem consegue articular direito as palavras, pois seu rosto está congestionado de felicidade. Só depois de alguns instantes é que o garoto compreendeu tudo o que acontecera. Um bondoso senhor da vizinhança, vestido de papai-noel, apiedou-se daquelas pobres alminhas infantis e resolveu tornar a noite de Natal deles menos triste, trazendo-lhes belos presentes. O conto terminava com estas palavras esperançosas, que o menino disse tendo os olhos pregados no céu escuro, talvez procurando rastros de renas e trenós: “Que Deus te abençoe, papai-noel, para que continues sempre levando alegria aos lares das crianças do mundo inteiro”.

Isso tudo parecia a Charles Dickens extremamente piegas. Na verdade, não era o que ele queria dizer às pessoas. Sabia que dentro de si, fervendo como leite num bule, algo muito mais denso e profundo permanecia incubado, germinando, crescendo, exigindo seu estro genial para se transformar em obra de arte. Deus havia lhe dado um dom tão grande, a capacidade de comover multidões através de sua palavra encantada, que muitas vezes ele se sentia terrivelmente esmagado por não corresponder aos desígnios divinos como desejava. Por isso mortificava-se, porque o Natal merecia muito mais do que aquele conto ordinário que escrevera numa tarde sem inspiração, um conto vergonhoso, que qualquer estudante de primeiras letras faria melhor. Em seu íntimo, Charles Dickens tinha a certeza de que não havia sido em vão que ele fora distinguido entre tantos homens com aquele talento excepcional. Magoava-lhe, porém, a ideia de que estava em débito com a humanidade e por isso se esforçava para criar algo que de fato pudesse servir com proveito a todas gerações e povos da terra. Como gostaria que suas páginas conseguissem traduzir o verdadeiro espírito cristão, a essência natalina! Não, não queria entregar aos editores do jornal uma história mesquinha em que apenas se tratava de maneira simpática a figura de papai-noel. Nada disso! Queria dar ao coração dos homens um texto eterno, humano, verdadeiro, como se ecoasse de um coro de anjos cânticos sublimes de fraternidade. Um conto que recendesse a perfumes do céu.

Naquela manhã, Charles Dickens saiu de casa mais triste que de costume. O escritor agasalhou-se o melhor que pôde, calçou um par de luvas brancas, enchapelou-se como convinha e enfiou-se pelas ruas com seu conto debaixo do braço, dirigindo-se para a sede do jornal Morning Chronicle. Um vento congelante desenhava manchas vermelhas no rosto das pessoas, que caminhavam apressadas pelas ruas febris. A menos de uma semana do Natal, parecia que toda gente resolvera fazer compras no mesmo dia e as lojas fervilhavam de clientes. As vitrines embaçadas, cobertas por gotículas d’água que o sereno espalhara durante a noite, exibiam todo tipo de produtos, que nem sempre os bolsos podiam pagar. Só o céu mantinha-se indiferente, silencioso e pálido como um cadáver.

Ao dobrar uma esquina, Charles Dickens sentiu que alguém lhe puxava uma das mangas de seu agasalho. No mesmo instante, escutou uma voz delicada como uma valsa de borboletas:

- Moço, o senhor não gostaria de comprar flores para sua esposa?

Era uma menina com pouco menos de dez anos. Vestia uma roupa muito surrada, limpa, é verdade, mas não quente o bastante para lhe proteger de toda aquela friagem da manhã. Nenhum chapéu lhe abrigava os cabelos afogueados, que folgavam indisciplinadamente sobre seus ombros pequeninos, soprados pelo vento ardido. Charles Dickens fitou a jovem florista sem saber direito o que deveria lhe responder. Não queria comprar flores, mas era época de Natal e dentro dos olhos da pequena havia rosas frescas, cintilando de esperança. Por um momento, pensou em seguir seu caminho, soberbo como um cachorro magro que achou um osso gorduroso no lixo do açougue e imagina que nunca mais terá fome.

- Elas custam apenas um pence cada, explicou a menina sorrindo.

- Você vai ficar resfriada, se não se agasalhar melhor. Seu pai sabe que está sozinha na rua, com todo este frio?

- Eu não tenho pai, respondeu a florista de cabeça baixa e agora com rosas murchas lhe pingando dos olhos. Em seguida, concluiu humildemente:

- Tento vender estas flores para conseguir um pouco de dinheiro. Minha mãe está doente e não pode mais costurar por causa de suas vistas. O pequeno Tim, meu irmãozinho, não anda desde que nasceu. Mas se o senhor o conhecesse, veria como ele é alegre e brincalhão! Com o dinheiro que estou juntando, vou poder lhe comprar muletas e um aparelho de ferro para sustentar as suas pernas...

O escritor estremeceu. Ali estava, com acanhadas variantes, todo o conto que ele trazia debaixo dos braços. Não sabia se a vida imitava a arte ou se a arte plagiava a vida. O fato é que Charles Dickens só não foi ao chão com aquela estranha coincidência, porque em suas pernas corria seiva mais vigorosa do que nas pernas do pequeno Tim. Vendo que a menina se entristecera por causa de sua pergunta, o bom Charles retirou do bolso de seu casaco uma carteira cor de nozes e, escolhendo a cédula de uma libra que trazia consigo, entregou-a à florista, dizendo:

- Dê-me três ramalhetes, por gentileza, e pode guardar o troco. Mas quero ver você sorrindo novamente, porque é tempo de Natal e não deve haver tristeza no coração das crianças.

A pequena pegou a nota com tanta delicadeza e receio, que mais parecia que a estava furtando. Era uma cédula novinha em folha, quase sem dobras, ainda com cheiro de tinta fresca e que a pobre jamais imaginou possuir em suas mãos. Estava acostumada a receber apenas pequenas moedinhas sujas, as mesmas que as pessoas atiravam aos mendigos como migalhas aos pombos. Somente se tranqüilizou e sorriu, quando a meteu na segurança de uma pequenina bolsa amarela, que ela guardou em seu vestido. Apanhou as mais belas rosas que trazia em sua cesta e as deu ao escritor, dizendo:

- Se estou sorrindo nesse momento, não é por causa do Natal, de que eu nem gosto, pois foi feito para poucos. Mas simplesmente porque sei que agora estou mais perto de comprar o que meu irmão tanto precisa.

- Não gosta do Natal? Indagou Dickens surpreso, tomando em seus braços os ramalhetes de rosas.

- Nunca tivemos Natal em casa. Nem todo mundo tem a sorte de morar no caminho por onde o papai-noel passa com suas renas insensíveis. Às vezes, minha mãe nos conta histórias de quando ela era criança, do tempo em que sua família se reunia em torno de uma mesa festiva para celebrarem o nascimento de Cristo...

- Este é o verdadeiro espírito do Natal...

- Sim, espírito de Natais passados, como diz minha mãe. Ela sabe que não pode nos dar o conforto que gostaria, nem presentes, nem doces, nem nada. Por isso se agarra tanto ao que já não existe. O espírito de velhos Natais ainda vive dentro dela, como cinzas de carvão numa lareira. Mas são apenas fantasmas do passado. Quando contemplo seus olhos, vejo que ali só há covas de sepulturas. Nenhuma esperança...

- Mas a esperança é a última que morre, isto é, dizem...

- Exato, mas no caso dela já morreu há muito. Houve um ano em que eu lhe perguntei o que nós ganharíamos de Natal. Nossa mãe respondeu que papai-noel não nos traria nada. “Ele não gosta da gente?”, insisti. “Ele nem sabe que existimos”, respondeu, dando de ombros...

- E o pequeno Tim, o que ele pensa a respeito do Natal?

- Meu irmão é puro como a neve que alveja o campo de alecrim. Imagino que ele seja o mais otimista dos filhos de Deus e por isso jamais deixa de sorrir, de acreditar que tudo na vida segue pelo melhor caminho possível. Ele ama o Natal e sonha com um futuro diferente para todos nós. Ao contrário de minha mãe, que está presa às grades do passado, o pequeno Tim é todo futuro. Cada Natal que se aproxima é para ele uma época de júbilo. Ele sabe que não ganhará nada, mas jamais deixa de pendurar um par de meias junto à lareira. Os espíritos dos futuros Natais parecem nunca abandoná-lo...

Charles Dickens ouviu atentamente toda a história da florista. Para uma garotinha, até que ela era bem amarga. Depois, tirou um relógio do bolso, conferiu o adiantado da hora e despediu-se de sua nova amiga, dizendo:

- Quero que fique com as rosas. Um ramalhete é seu, outro é para sua mãe e o terceiro quero que você entregue ao pequeno Tim.

Ela sorriu agradecida e seguiu pela rua carregando seu enorme cesto repleto de flores. Somente depois dela ter dobrado a esquina, é que o escritor percebeu que a menina havia perdido sua bolsa amarela. Apanhou-a no mesmo instante junto à calçada e correu apressado atrás da florista, mas já não a encontrou em parte alguma. Ficou desesperado! Na certa, a pobre infeliz só daria pela falta de sua bolsa, quando precisasse guardar algum dinheiro. Um alívio sincero estampou-se na face do prestativo Charles, quando este abriu a pequenina bolsa amarela e encontrou um caderninho onde a menina anotava a quantidade de rosas que vendia. Logo na primeira folha, deu com o endereço da florista e sentiu-se grandemente feliz em poder lhe restituir o objeto perdido. Teve certa pena ao constatar que, além da cédula de uma libra, havia ali apenas uma ou outra moedinha azinhavrada.

Enquanto Charles Dickens caminhava pela rua repleta de pessoas apressadas, carregando pacotes de todos os formatos e tamanhos, sua mente aproveitava para remoer a conversa que ele tivera com a florista. Aquela pobre menina havia despertado o velho garoto que havia dentro dele e que há tanto tempo deixara de existir. Lembrava-se agora da sua infância carente, do tempo em que colava rótulos de papel em latas de graxa, sentado num canto de um galpão gelado. Desde cedo, aprendera a dar valor ao trabalho e por isso mesmo sentia certa afeição àquela humilde garotinha, que trocava sua infância para amparar a própria família. Além disso, ela havia lhe dito certas coisas que valiam a pena serem meditadas com mais calma, pois talvez dessem uma boa história, muito melhor do que aquela que ele trazia debaixo do braço.

Foi quando uma ideia lhe acudiu ao cérebro. Por que não seria ele papai-noel para aquelas pobres crianças? Assim como uma alma benévola apiedara-se do menino cantor e sua irmã no conto que escrevera, dando-lhes belos presentes de Natal, ele também poderia levar um pouco de alegria ao lar da florista e do pequeno Tim. Teria mesmo que se dirigir à casa da menina para lhe devolver sua bolsa amarela e, se ali se apresentasse vestido como papai-noel, trazendo nos braços pacotes coloridos, que felicidade para todos! E um gesto desse lhe custaria tão pouco...

Pois estava decidido! Não precisou caminhar muito para descobrir atrás de uma vitrine caprichosamente enfeitada lindos brinquedos que encheriam de contentamento os olhos de qualquer criança. Chamou-lhe a atenção uma magnífica locomotiva de madeira, que lhe pareceu a reprodução exata de um trem que ele tomara certa vez de Londres para Manchester. Com certeza, o pequeno Tim vibraria entusiasmado ao ter um daqueles nas mãos. Ao lado da locomotiva, encontrava-se uma charmosa boneca de porcelana, com olhos de vidro e cabelos castanhos tão perfeitos que realmente pareciam de verdade. O seu vestido era um primor de trabalho, rico em detalhes sofisticados, que faria inveja a muita modista de renome em Paris. Não havia dúvidas que a florista se apaixonaria por ela.

A loja era enorme. Inúmeras portas e vitrines davam para a rua principal e outras tantas abriam-se ao fundo da firma para a rua de trás. À medida que a loja prosperava, o dono ia adquirindo as propriedades vizinhas, rasgando-lhes as paredes laterais para que os clientes pudessem circular dentro do estabelecimento sem ter de sair à rua. Ali se vendia de tudo, de roupas íntimas a charutos importados e venenos para ratos. A desorganização, porém, era o cartão de visitas da casa. Os corredores, estreitos e abarrotados de gente, produziam nos fregueses uma certa sensação de asfixia. Após muitos encontrões e pedidos de desculpas, Charles Dickens finalmente conseguiu chegar à galeria central, que era o ambiente mais amplo e arejado da loja.

Pois o escritor ficou fascinado...

Próximo a uma fonte com a forma do deus Tritão, bem no centro da galeria, encontrava-se estacionado um exótico trenó, que mais parecia charrete de entregar leite. Ao seu lado, um papai-noel magro, sentado numa imponente cadeira de pinho regiamente entalhada, procurava divertir as crianças enquanto seus pais gastavam o que podiam e o que não podiam com presentes supérfluos. Lentamente, o escritor foi se aproximando do sujeito vestido de vermelho. Por longos minutos, deixou-se ficar ali, admirando a criatura, como se procurasse aprender com ele os rudimentos da arte de ser papai-noel. Tanto encarou o distinto cidadão, que este acabou interrogando Charles Dickens com certa aspereza e algum receio:

- Que foi? Você é da segurança por acaso?

- Não, não, de maneira alguma! Estou apenas dando uma olhada. Pode continuar o seu trabalho sossegado.

O homem bufou impaciente, como se tivesse dito em pensamento coisas nada belas para se dizer a uma pessoa honrada. Voltou a se concentrar em algumas crianças que faziam baderna ao seu lado, quando ouviu o escritor dizendo:

- Essa barba deve coçar um bocado, não?

- O que você acha? ironizou.

O afetuoso Charles apenas sorriu, estendendo-lhe a mão espalmada para um cumprimento fraterno:

- Sou Charles Dickens, o escritor - apresentou-se.

Nesse instante, o sujeito teve um acesso violentíssimo de tosse, dando a impressão de que, a qualquer momento, iria vomitar os pulmões catarrosos. Charles Dickens recolheu a mão meio sem graça e, sem cumprimentá-lo, apenas disse:

- Qual é mesmo o seu nome:

- Scrooge, respondeu o outro de má vontade.

- Que belo nome! Só o som já é pura poesia. Lembra-me o nome de alguma cidade da velha Tessália. Se não me falha a memória, houve um certo Scrooge, fidalgo honradíssimo de uma das mais nobres linhagens da preclara dinastia dos...

Enquanto Dickens arengava, procurando parecer interessante, o homem aproveitou para assoar o nariz na manga da camisa, deixando o escritor estarrecido com aqueles modos pouco aristocráticos. Pensando bem, o sujeito até que era muito mal-encarado para trabalhar como papai-noel. Não seria ele um mau exemplo para as crianças? De qualquer maneira, o complacente Charles parecia estar fascinado com a figura majestosa do papai-noel e insistia em puxar assunto:

- Por acaso você saberia me dizer onde posso alugar uma roupa dessas? É que pretendo dar alguns presentes de Natal e gostaria de me fantasiar a caráter.

O velho Scrooge deitou sobre aquele sujeitinho impertinente um longo olhar de desprezo e somente depois respondeu, sem lhe dar muita atenção:

- Não faço a menor ideia. Esta foi o almoxarife quem me trouxe.

- Ah!... Mas o almoxarife podia ter lhe dado um número mais de acordo com o seu corpo. Você é magro e esta roupa é para gordo! Veja como sobra tecido frouxo para todo lado... Por que você não põe uns enchimentos? Assim como está, chega a ser até ridículo. Veja se enche com algodão; tenho certeza de que você fará melhor figura diante das crianças...

“Quem está enchendo a minha paciência é você”, pensou o magricelo Scrooge. Depois de tantos anos, ainda aparecia gente querendo lhe ensinar o ofício.

- Além disso - continuou Charles - a sua maquiagem está toda borrada. Parece um bicho! Desse jeito, você só espanta a meninada. E onde está seu chapéu? Onde já se viu papai-noel sem chapéu? Para falar a verdade, você está um tanto avacalhado...

A vontade do sujeito era levantar da cadeira e dar uns bons tabefes no escritor. Tinha cabimento uma coisa dessas? Ele ali dando um duro danado em seu trabalho, suando para ganhar aquele miserável dinheirinho de que tanto precisava e, sem mais nem menos, aparecia um desocupado qualquer para dar palpites de como ele deveria proceder. Ora, bolas! Já era um horror ter de suportar aquela criançada diabólica, quanto mais gente maçante daquele naipe. Apesar de tudo, o circunspecto papai-noel era manso e controlou-se como pôde, limitando-se apenas a olhar feio para o importuno. Charles Dickens, porém, continuava insistindo. Em sua crassa ingenuidade, o escritor deveria imaginar que estaria ajudando o pobre papai-noel:

- Por que não abotoa essas luvas direito? Não que eu queira me intrometer no trabalho alheio, mas acho que você deveria sorrir mais para as crianças. Veja como elas estão assustadas, parece que estão diante de um tigre...

O faminto Scrooge apanhou um lanche gorduroso que trazia escondido dentro do saco de presentes e pôs-se a devorá-lo com sofreguidão, ignorando a platéia. Nunca é demais lembrar que o sujeito comia feito um porco enfurecido de fome, cobrindo-se com migalhas e caldo de maionese derretida que iam lhe pingando ao colo. Charles Dickens achou aquilo o cúmulo da falta de etiqueta e quis chamar-lhe a atenção por comportamento tão sem propósito, mas desta vez conteve-se, dizendo simplesmente:

- Está gostoso?

O cavalheiro fitou o enxerido escritor, procurando esconder a merenda dentro de um saco de papel que lhe servia de guardanapo, pois temia ter que dividi-la com estranhos. Depois, quando já havia terminado a refeição e lambia a gordura das luvas, emitiu um protuberante arroto que encheu de nojo quem passava pelos arredores do local. Charles Dickens esteve para denunciá-lo a seus superiores ao testemunhar tamanha barbaridade. Não parecia ser muito inteligente por parte dos proprietários da loja contratar funcionários tão desqualificados como aquele. Entrara ali para comprar presentes à florista e ao pequeno Tim e decidira observar como agia um “verdadeiro” papai-noel, pois era assim que pretendia se apresentar às crianças e imaginava que poderia aprender alguma coisa com ele. Quanta decepção! Aquilo era sinal dos tempos. Se a mãe da florista simbolizava os Natais passados e o pequeno Tim sonhava com os Natais futuros, aquele infeliz dava bem a ideia dos Natais presentes. Estava ali apenas pelo salário de fome que lhe pagavam e pouco lhe importava ser educado, mostrar-se afetuoso com as crianças, tratar as pessoas com todo respeito, civilidade e cortesia que qualquer ser humano merece. A verdade é que se vivia uma época em que estas noções estavam fora de moda e o verdadeiro espírito natalino não passava de um bom argumento para que os comerciantes astutos pudessem vender ainda mais os seus produtos.

Charles Dickens fazia estas reflexões, quando um menino gordinho, com ar traquinas, veio correndo e deu um pulo repentino sobre o colo do papai-noel, esmagando-lhe aquelas partes que não convém citar em contos de Natal. O velho Scrooge gemeu com os olhos a saltar dos eixos, mas não emitiu palavra alguma. A sua vontade era esganar o diabinho com o chicote que supostamente serviria para açoitar aquelas enormes renas pançudas de pelúcia. Porém, diante dele encontrava-se o não menos suposto pai do garoto, um brutamontes carrancudo que mais parecia ter saído das hordas de Gengis Khan.

O moleque devia ter urtiga dentro das calças, porque não parava quieto. Agitava-se, berrava, beliscava, mordia, chutava e tanto fez que acabou arrancando a barba do papai-noel. Ao vê-lo assim descaracterizado, Charles Dickens correu para acudi-lo, imaginando que poderia granjear sua amizade, se ajeitasse no local de costume a barba que permanecia pendurada por uma das orelhas. Acontece que o escritor, nervoso e um tanto atabalhoado em sua corrida nada graciosa, veio a tropeçar nuns pacotes coloridos que compunham aquele singelo cenário natalino. Toda gente sabe que o destino é um truão incorrigível, sempre disposto a pregar suas peças onde quer que haja uma situação favorável. Ao perder o equilíbrio, o desastrado Charles foi se espatifar justamente sobre o pouco venturoso Scrooge, derrubando o velho e sua cadeira dentro daquela belíssima fonte, que continuava a jorrar suas águas indiferente às tragédias humanas.

Perdoem-me o trocadilho infame, mas foi a gota d’água. A criatura furibunda saiu da fonte feito um mostro mitológico a rugir com mil dentes pedregosos, prontos para estripar aquele ser odioso e miserável. Uma menina que inocentemente chupava um pirulito colorido, segurando a mão de uma senhora, perguntou-lhe:

- Mamãe, porque o papai-noel está batendo naquele homem?

Pois grande foi a surra apanhada pelo escritor. Houve uma correria geral e muitos afirmavam que papai-noel havia ficado louco. Somente conseguiram contê-lo, quando a polícia chegou distribuindo bordoadas para todo lado.

Na rua, caminhando meio troncho porque tinha o corpo todo dolorido, Charles Dickens jogou seu conto na primeira lata de lixo que encontrou:

- Papai-noel? Bah!... Não vai entrar de forma alguma em meu conto!

E pensando melhor:

- Mas esse Scrooge...

E nem acabara de entrar em casa, o escritor apanhou sua pena e começou a escrever furiosamente, pensando em tudo o que lhe havia acontecido naquela tarde, na florista, no pequeno Tim, nos espíritos dos Natais presentes, passados e futuros:

“O Senhor Scrooge era um velho avarento e mau...”


(Do livro "Contos Maus")

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